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Casos de Falsas Acusações de Abuso Sexual parte II "Fells Acres"



Fells Acres

 

 

Em 1966, Violet Rose Amirault, de 42 anos, recentemente divorciada e com dois filhos, resolveu abrir uma creche na casa dela, em Malden, Massachusetts, para sustentar a família. Foi o começo de um empreendimento de futuro, que tomou o nome de Escola de Dia de Fells Acres e veio a ocupar toda a casa, mais uma extensão, tendo espaço para mais de 70 crianças de cada vez.

Milhares de crianças passaram pela escola em 18 anos de serviço, durante os quais não houve uma única queixa nem suspeita de comportamento impróprio. Violet Amirault eventualmente deixou de dar aulas, ficando apenas como diretora da escola; entre o pessoal docente contavam-se a sua filha Cheryl e a nora Patti.

Em abril de 1984, aconteceu que um menino de quatro anos, recebido havia pouco tempo, urinou durante uma sesta. A pedido da educadora, Gerald Amirault, de 31 anos, filho de Violet e funcionário da escola, tirou-lhe as roupas molhadas, que meteu num saco de plástico para enviar para casa do menino, e vestiu-lhe umas roupas que a escola tinha para incidentes como esse. Até aqui, não havia nada a assinalar; mas o menino tinha problemas de comportamento, como enurese e hostilidade, os pais estavam no meio de um divórcio litigioso, e o incidente da escola, que não tinha importância nenhuma, foi recordado quando, no verão daquele ano, o menino foi encontrado em brincadeiras sexuais com um primo.

Depois de ser interrogado pelo tio, pela mãe e por um terapeuta do hospital pediátrico local, o menino disse que Gerald lhe tinha tirado os calções. Interrogado mais vezes, acabou por "confessar" que Gerald todos os dias lhe punha uma venda nos olhos, levava-o para um "quarto secreto", deitava-o numa cama que lá havia e praticava diversos atos sexuais com ele. A mãe perdeu a cabeça e denunciou Gerald em 2 de setembro. Três dias mais tarde, a polícia foi à escola prendê-lo, com base numa acusação não corroborada, e ordenou o encerramento imediato desta.

Os pais de todos os alunos foram convocados pela polícia e pelos assistentes sociais para um encontro na praça local, que teve lugar em 12 de setembro. Ali, os 65 pais presentes foram informados de que, se algum dos seus filhos tinha enurese, pesadelos ou perda de apetite, era por ter sido abusado sexualmente; e foi-lhes pedido que interrogassem os filhos sobre se tinham ouvido falar de "quartos secretos" ou "mágicos", ou se tinham visto palhaços na escola. "Vão para casa, interroguem os filhos, e não aceitem uma negativa como resposta", disseram-lhes os polícias, acrescentando: "Deus permita que nenhum dos senhores pareça defender os acusados. Os seus filhos nunca lhes perdoariam".

As pobres crianças foram interrogadas repetidamente, pelos pais, pelos assistentes sociais e terapeutas, pela polícia e por uma enfermeira pediátrica chamada Susan Kelley, cujo papel nos interrogatórios foi devastador, e que chegou ao ponto de dizer aos pais de uma criança que negava tudo que esta tinha sido abusada, mas, por bloqueio psicológico, não conseguia admiti-lo.

O Inspetor John Rivers, da polícia local, exasperado com o fato de nenhuma criança ter revelado espontaneamente um único caso de abuso, declarou que interrogar os meninos era "como tirar sangue de uma pedra". Depois de muito trabalho, a polícia conseguiu de 41 crianças acusações de abuso sexual e pornografia infantil contra Violet Amirault, Gerald Amirault e Cheryl Amirault LeFave, as únicas que o Ministério Público reteve; acusações contra três outros professores, dois indivíduos imaginários chamados "Sr. Gatt" e "Al", e a própria enfermeira Susan Kelley foram arquivadas por falta de provas [9].

O Delegado do Ministério Público estadual, L. Scott Harshbarger, era um jovem ambicioso e viu que este processo podia ser o primeiro passo numa brilhante carreira política, pelo que lhe dedicou o seu maior carinho. O caso de Fells Acres, como ficou conhecido, foi a julgamento. Crianças de 3 e 4 anos papaguearam com maior ou menor fidelidade o que lhes tinham ensinado. Não houve provas materiais de qualquer abuso. Não houve uma única testemunha que afirmasse ter visto um abuso, ou até mesmo ter sabido dele, e isto apesar de a escola ter as portas abertas de dia e ser visitada por pais e familiares das crianças, além de fornecedores, a qualquer hora e sem aviso. Só havia provas testemunhais de crianças, e era apenas na sua credibilidade e fiabilidade que assentava todo o processo.

A credibilidade destas crianças pode avaliar-se pelo seguinte: Durante os interrogatórios da polícia, disseram terem sido violadas com facas de cozinha e paus (que, milagrosamente, não deixaram quaisquer vestígios); ter sido obrigadas a beber urina e a engolir rãs vivas; terem sido obrigadas a ver os Amiraults matar pássaros azuis; ter sido perseguidas por robôs com luzes que piscavam; e ter sido violadas por lagostas gigantes. Segundo um menino, testemunha-chave do processo, Violet Amirault espetou-lhe um pau no reto, estando ele de pé, e depois violou-o com uma varinha mágica; e Cheryl atou-o a uma árvore, estando ele nu e na presença de todos os professores e alunos, obrigando-o em seguida a vê-la cortar uma perna de um esquilo.

Gerald Amirault foi acusado de oito violações de crianças e sete abusos sexuais de menores, cometidos no tal "quarto mágico" (mais tarde identificado como a casa de banho do andar de cima da escola) quando se encontrava vestido de palhaço e dava pelo nome de Tooky, alcunha que realmente tinha quando era menino. Foi também acusado de ter fotografado e filmado os alegados abusos, embora nunca se tivessem encontrado vestígios de tais fotos ou filmes. O próprio tribunal reconheceu a fragilidade das acusações:

Vinte e dois professores, auxiliares e outros empregados da escola testemunharam que tinham acesso livre e sem prévio aviso a todas as partes da escola a qualquer hora. Nenhum sabia de quaisquer indícios de abuso, nenhum tinha ouvido falar de um "quarto mágico" onde a maior parte dos abusos tinha alegadamente ocorrido, e nenhum tinha alguma vez visto Gerald vestido de palhaço, ou até mesmo uma roupa de palhaço dentro da escola. Todos declararam que as crianças gostavam muito de Gerald, antes das alegações de abuso [10].

Apesar de ser claramente inocente, Gerald Amirault foi condenado em 1986 a 30 e 40 anos de prisão. Violet Amirault foi acusada de duas violações e três abusos, Cheryl de três violações e quatro abusos, sendo ambas condenadas em 1987 a 8 e 20 anos de prisão. Eram ambas inocentes. Mas o Delegado do Ministério Público, Lawrence Hardoon, ao ouvir a sentença condenatória, dirigiu-se às pobres mulheres, dizendo-lhes que a partir daquele momento era "vergonhoso" elas continuarem a insistir na sua inocência.

As primeiras dúvidas sobre o processo surgiram em 1991, e vários especialistas demonstraram como o Ministério Público tinha construído um caso sobre abusos inexistentes. Mesmo assim, os tribunais de Massachusetts recusaram-se durante anos a considerar uma revisão do processo, e quando cederam, foi com uma má vontade manifesta.

Violet e Cheryl pediram várias vezes liberdade condicional, que lhes foi sempre recusada; a esta última, foi-lhe dito que não sairia enquanto não confessasse a sua culpabilidade. Mas em 1995, o Supremo Tribunal do Estado anulou por fim as condenações de Violet e Cheryl, ordenou a libertação delas e concedeu-lhes o direito de novo julgamento; o Ministério Público recorreu e as sentenças foram novamente impostas, porque, segundo os doutos magistrados: O simples fato de os processos, se fossem novamente julgados, poderem ter outro fim, ou o fato de ainda haver alguma dúvida sobre as condenações originais, não pode constituir uma razão suficiente para reabrir um caso que a sociedade tem o direito de considerar encerrado.

Violet Amirault, muito doente, foi libertada sob fiança e morreu de um cancro em setembro de 1997, com 74 anos. Cheryl foi autorizada a visitá-la no hospital antes que morresse, mas negaram-lhe a autorização para ir ao funeral da mãe.

Em 21 de outubro de 1999, os advogados de Cheryl conseguiram a sua libertação, mas sob condições severas: Cheryl estava proibida de ter contatos com as alegadas vítimas ou suas famílias, de arranjar um emprego que a pusesse em contacto com menores de 16 anos, de se aproximar de um menor de 16 anos sem estar acompanhada, e de receber dinheiro de publicações que se referissem ao seu processo. Nos dez anos seguintes, ficaria sob supervisão oficial e ficaria proibida de falar publicamente do seu processo. Além disso, desistiria para sempre de ilibar o seu nome por via legal. Qualquer violação destas condições implicaria a sua prisão imediata. O fato de lhe estarem negado os seus direitos constitucionais era irrelevante.

Gerald Amirault continuou preso. Em 6 de Julho de 2001, a Comissão de Liberdade Condicional de Massachusetts votou a sua libertação por unanimidade, mas a Governadora do Estado, Jane Swift, arrastou a sua decisão até 20 de Fevereiro seguinte, para não prejudicar a sua campanha eleitoral e, por fim, recusou-se a aprovar a liberdade condicional, por não lhe parecer "aconselhável" [11]. Depois de vários recursos legais, a Comissão reconfirmou a libertação condicional de Gerald Amirault em 16 de outubro de 2003, numa decisão que não carecia de aprovação do novo Governador, Mitt Romney – e, ainda bem, porque se dizia que o Governador era homofóbico. Mas, por razões burocráticas, a libertação de Gerald foi adiada para 30 de abril de 2004. O sistema judicial, contudo, teve a última palavra: em 25 de Março de 2005, a Repartição de Registro de Delinquentes Sexuais classificou-o como delinquente de nível 3, ou seja, perigoso, com alto risco de reincidência, o que praticamente lhe anulava as hipóteses de arranjar emprego. Ficou proibido para toda a vida de ter contato com menores de 18 anos. E os jornais locais foram obrigados, por lei, a publicar um aviso à comunidade, dizendo que Gerald estava em liberdade e onde residia [12].

Os Delegados do Ministério Público que foram responsáveis pela condenação de pessoas inocentes prosperaram na vida. Lawrence Hardoon veio a ser sócio de uma firma de advogados especializada em exigir indenizações de pessoas condenadas por abusos sexuais, o que lhe garantiu uma existência economicamente folgada. L. Scott Harshbarger teve uma carreira política distinta [13], além de ser Professor de Ética Legal (!) na Faculdade de Direito da Boston University, e Professor visitante da Harvard Law School e da Northeastern University.

O crime às vezes compensa - e dizemos “crime” com razão: quando era mais que evidente que os Amiraults eram inocentes, Harshbarger declarou ao Boston Globe, em 20 de Abril de 1997, que os que pretendiam provar a sua inocência estavam a "negar absolutamente que existe abuso de crianças". Seria esta a atitude que se esperava de um cristão devoto e membro do Union Theological Seminary de Nova York, como Harshbarger era?

E os meninos, agora adultos? O escândalo de Fells Acres foi um grande negócio, cujos pormenores só foram revelados em 1997 por um jornalista de investigação [14]. O menino que deu origem ao escândalo recebeu 75.000 dólares após a condenação dos Amiraults, mais 35.000 quando fez 18 anos e 45.000 aos 21 anos, e receberá 65.000 dólares aos 25 anos e 110.000 dólares (!) aos 30 anos. Outros receberam 50.000 dólares quando fizeram 18 anos. Uma menina que só esteve dois meses na creche e nem sequer chegou a testemunhar recebeu 70.000 dólares após as condenações, seguidos de 35.000 dólares aos 18, 21 e 25 anos, e a partir de 2011 ficará a receber uma pensão mensal de 378 dólares até ao fim da vida; os pais receberam 70.000 dólares de recompensa. Outra menina, que também não testemunhou, recebeu 85.000 dólares e, quando perfizer 25 anos, passará a receber 2.385 dólares mensais por toda a vida. Vale ou não vale a pena fazer condenar inocentes?

[9] Mais tarde, Sena Garvin, da University of Texas at El Paso, usou as técnicas de interrogatório aplicadas ao caso de Fells Acres num projecto de investigação, obtendo acusações falsas de 75% das crianças de 3 anos e 50% das crianças de 4 a 6 anos incluídas no seu trabalho. E isto fora de um ambiente de coacção policial.

[10] Da transcrição do texto oficial da revisão do julgamento dos Amiraults. Cf. ainda www.stopbadtherapy.com/letters/romney.html.

[11] A justiça divina é superior à dos homens; a eleição teve lugar em 19.3.2002 e Jane Swift perdeu.

[12] É justo acrescentar que os vizinhos de Gerald, indignados por tais decisões, escreveram às autoridades em protesto, apoiando-o. E um anónimo fez-lhe chegar às mãos dinheiro suficiente para ele poder custear os estudos universitários das filhas.

[13] Foi membro da Comissão de Ética do Estado de Massachusetts, foi eleito Procurador Geral do Estado em 11.1990 (reeleito em 11.1994), e foi candidato a Governador do Estado em 11.1998 pelo Partido Democrático, perdendo a eleição, embora obtivesse 48% dos votos.

[14] Tom Mashberg, num artigo de 22.4.1997 no Boston Herald.

Fonte:






 
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Caos de Falsas Acusações de Abuso Sexual, Parte I " Caso McMartin"



McMartin

 

 

O primeiro grande escândalo de pedofilia nos Estados Unidos começou em Agosto de 1983, na cidade californiana de Manhattan Beach, quando uma mãe alcoólica e psicótica de Los Angeles, Judy Johnson, reparou que o seu filho, de dois anos e meio, voltara da creche McMartin com o traseiro avermelhado. Perguntou ao menino o que tinha acontecido, e ele aparentemente falou dum funcionário da creche, chamado Ray, mas sem conseguir explicar o que ele teria feito. Foi o suficiente para a mãe chamar a Polícia, que embarcou alegremente numa ofensiva antipedofílica até então sem precedentes.

Judy Johnson não ficou por ali; começou a ampliar as alegações, até acusar Raymond Buckey (o tal Ray), familiar dos proprietários da creche, de ter obrigado o seu menino a andar nu a cavalo, de ter abusado dele enquanto estava vestido de polícia, ou de bombeiro, ou de palhaço, ou de Pai Natal, e até de ter posto agrafes nas orelhas e na língua do menino e lhe ter espetado os olhos com uma tesoura, embora não houvesse indícios materiais de coisa nenhuma. Não ficou por aqui; disse que Ray tinha sodomizado o seu menino enquanto lhe metia a cabeça numa retrete, e acusou três modelos dum clube de ginástica e um fuzileiro de terem violado a criança. Como se isso não chegasse, acusou a mãe do infeliz Ray, Peggy McMartin Buckey, de ter assassinado um bebé para o filho lhe beber o sangue. Mais tarde, já depois de lhe ter sido diagnosticada uma psicose, Judy Johnson, cuja fixação anal era cada vez mais evidente, acrescentou que o seu cão tinha sido sodomizado por um desconhecido que lhe entrara em casa, e que o seu próprio marido tinha abusado sexualmente do menino, que teria também sido sodomizado por um leão!

Numa situação normal, a Polícia teria pensado duas vezes antes de dar crédito a uma história tão inverossímil; mas uma alegação de pedofilia tem o condão de paralisar o raciocínio dos servidores da lei. Assim, a Polícia enviou cerca de duzentas cartas às famílias das crianças matriculadas na creche, perguntando-lhes se tinham notado alguns sinais de abuso - e pedindo-lhes expressamente que encontrassem indícios que comprometessem Ray Buckey:

Por favor, interrogue o seu filho, para ver se ele ou ela observou algum crime ou se foi vítima. A nossa investigação indica que os atos possíveis incluem: sexo oral, manipulação dos órgãos genitais, nádegas ou peito, e sodomia, possivelmente cometida sob o pretexto de ver a temperatura da criança [com um termômetro retal. Também é possível que tenham sido tiradas fotografias das crianças nuas. Qualquer informação do seu filho, no sentido de alguma vez ter observado Ray Buckey sair de uma sala, sozinho com uma criança, durante o período da sesta, ou se viu Ray Buckey atar uma criança, é importante.

O Ministério Público recomendou aos pais que enviassem os pequenos a uma clínica especializada, o Children's Institute International (CII), para serem submetidos a terapia. Os pais entraram em pânico e entregaram os filhos ao CII, cujos funcionários submeteram as indefesas crianças a vários interrogatórios, que incluíam o uso de bonecos anatomicamente corretos, e encorajaram-nas a contar tudo; para eles, o facto de se negar um abuso era indício seguro de que a criança tinha sido abusada. A sua obstinação foi devidamente recompensada - e de várias maneiras: o CII interrogou mais de 400 crianças, e por cada uma recebeu 455 dólares do Estado.

As crianças não tardaram em contar histórias incríveis. Os educadores, por vezes vestidos de bombeiros, abusavam delas de várias maneiras, incluindo à beira de uma via rápida (onde passavam 17.000 veículos por dia) e a bordo de um balão; mutilavam e sacrificavam animais à sua frente; usavam-nas em rituais satânicos praticados em túneis escavados no subsolo da creche; matavam leões; tinham relações sexuais com uma girafa e com um elefante; voavam pela janela; apareciam diabos, bruxas, fantasmas e zombis azuis a assistir aos abusos; e as crianças eram obrigadas a comer fezes com molho de chocolate e a beber sangue e urina. Estes pormenores foram escamoteados pela Polícia na montagem do processo [1], mas ficou a sugestão de que a creche era a sede de uma "rede de pornografia infantil", porque cada abuso teria sido fotografado. Segundo o Ministério Público, haveria milhões de fotos das crianças, que tinham sido difundidas por todo o mundo.

Em Março de 1984, a Polícia deteve vários membros da família Buckey, incluindo a fundadora da creche, Virginia McMartin Buckey, uma pobre mulher de 77 anos que, apesar de estar numa cadeira de rodas, teria abusado de várias crianças [2].

Fizeram-se buscas em 21 casas, sete estabelecimentos comerciais, 37 automóveis, três igrejas, dois aeroportos, uma quinta, e até num parque nacional. Examinaram-se fotos e filmes pornográficos, obtidos de várias fontes, para tentar identificar a presença de alguma criança da creche. Pediu-se a colaboração do FBI e da Interpol. A imprensa alimentou durante meses uma campanha de histeria coletiva que se refletiu grandemente nos lucros das vendas dos jornais. Até pessoas responsáveis esqueceram a sua dignidade profissional e o mais elementar bom senso.

O Dr. Roland C. Summit, que se considerava uma autoridade em casos de abuso sexual de crianças, chegou a louvar a imprensa: "Sem esta cobertura por parte da imprensa, ficaríamos encalhados nos nossos velhos mitos" [3] - ou seja, custaria a crer em tanto disparate. E mais: centenas de crianças teriam escapado aos abusos sexuais por causa da publicidade feita a propósito do caso McMartin [4]. Talvez a sua atitude se devesse, pelo menos em parte, a ele ter recebido um subsídio de 66.000 dólares para organizar um centro de apoio, onde os pais e familiares iriam buscar respostas para todo o tipo de perguntas: onde posso ir pedir ajuda... o miúdo do vizinho fez (ou disse)... ouvi dizer que a loja da esquina... porque é que ainda não foram presos... como é que sei se o meu filho foi molestado... [5]

Com este gênero de "apoio", a acusação podia contar com uma atitude correta dos pais das supostas "vítimas". E o Dr. Summit não foi parco em declarações públicas, para que o ímpeto da caça ao pedófilo não esmorecesse: as crianças não mentem (e era impensável pôr em causa este dogma); era preciso expandir os recursos terapêuticos para ajudar as crianças; era preciso evitar que houvesse dúvidas sobre a realidade dos abusos, porque assim as crianças, vendo que não acreditavam nelas, ficariam caladas; era preciso que todos os arguidos fossem condenados, caso contrário a sociedade deixaria de acreditar na Justiça. Argumentos que, infelizmente, já são conhecidos no nosso País.

360 crianças teriam sido abusadas, mas apenas onze apareceram em tribunal - as restantes estavam tão desacreditadas que tinham perdido a sua utilidade - e duas destas foram eliminadas da lista de testemunhas à última hora. As supostas "vítimas" foram bem preparadas por psicólogos, e repetiram as alegações em tribunal. Mas não havia quaisquer provas materiais que servissem à acusação; os "milhões" de fotos pornográficas que a Polícia afirmava terem sido tiradas nunca apareceram, nem os famosos túneis foram encontrados, apesar de se terem feito escavações por todo o lado [6]. O julgamento de Raymond e Peggy começou em Abril de 1987, e as deliberações do júri terminaram em Abril de 1989 num empate; o julgamento foi repetido no ano seguinte, com o mesmo resultado. O Ministério Público desistiu então da queixa, e o processo foi encerrado em 1990, depois de se terem gasto seis anos e quase 16 milhões de dólares para tentar provar crimes que nunca tinham acontecido. É verdade que nenhum dos arguidos foi condenado; mas os anos que passaram na cadeia, ninguém lhes recompensaram.

Os arguidos, as únicas vítimas do processo, tentaram depois refazer as suas vidas. Ray deixou a vida despreocupada que tinha levado, acabou o curso secundário e matriculou-se num curso de Direito; a sua irmã Peggy Ann conseguiu que lhe devolvessem a licença para ensinar e foi professora numa escola para crianças especiais em Anaheim, Califórnia. O episódio de histeria da creche foi o tema de um filme, Indictment: The McMartin trial ('Acusação: O julgamento de McMartin'- "O silêncio dos Culpados" na versão portuguesa, com James Wood) feito em 1995 e transmitido por vários canais de TV por cabo nos Estados Unidos.

Os verdadeiros crentes na existência de rituais satânicos, que se organizaram em grupos por toda a América - o mais importante adotou o nome de Believe the Children ('Acreditem nas Crianças') - foram confortados com as palavras do controverso Ted L. Gunderson, ex-Agente Especial do FBI e fanático da conspiração, que desempenhou um papel de certo relevo no caso McMartin:

Há fortes indícios de que membros da rede satânica estão a dirigir creches de dia. Crianças de diversos Estados, que nunca se encontraram, estão a contar às autoridades histórias semelhantes a respeito das suas experiências na creche.

A esquizofrenia de Judy Johnson piorou a olhos vistos; em certa altura chegou a barricar-se em casa com medo de estranhos que, segundo disse, andavam a segui-la. Em 1985 foi internada num manicômio, e no ano seguinte foi encontrada morta, devido a complicações renais causadas pelo alcoolismo. Não chegou a assistir às consequências das suas fantasias.

Muitas das crianças, hoje adultos, continuam a insistir na veracidade dos disparates que contaram com a ajuda dos terapeutas, assistentes sociais e polícias, que devem rever-se no que conseguiram fazer.

A creche, que já tinha sido danificada por fogo posto, foi demolida, mas o vírus de McMartin não tardou a espalhar-se pelas terras mais remotas. A Dr.ª Astrid Heppenstall Heger, vigorosa ativista da proteção de menores [7] e colaboradora do Children's Institute International (CII), deslocou-se a Christchurch (Nova Zelândia) em Novembro de 1991 para dirigir um seminário sobre abusos sexuais. 17 dias mais tarde, declarou-se na cidade um caso de histeria coletiva: dezenas de crianças que frequentavam uma creche teriam sido abusadas, num cenário copiado diretamente do caso McMartin e com pormenores inspirados no referido caso. Um funcionário da creche, Peter Ellis, foi detido em Março de 1992 e condenado a dez anos de prisão por crimes que nunca aconteceram [8]; quatro funcionárias, que tinham sido detidas por protestarem contra a investigação e foram depois acusadas de dançar nuas à roda das crianças da creche, foram absolvidas e mandadas em paz, enquanto na sala do tribunal se ouviam gritos de "Enforquem as putas!". Astrid Heger continuou a sua brilhante carreira, recebendo inúmeros títulos, prêmios e homenagens de organismos oficiais e privados, que fizeram dela talvez a defensora das crianças mais galardoada do mundo.

 

[1] Mesmo assim, os psicólogos tinham uma resposta pronta para quem duvidasse da veracidade das alegadas vítimas: tinham sofrido tanto com os abusos sexuais que construíram uma série de fantasias como estratégia de auto-defesa.

[2] Por razões de saúde, foi libertada ao fim de mais de dois anos de prisão preventiva. Quase todos os arguidos foram libertados por falta de provas após 18 meses na cadeia. Ray ficou preso mais de cinco anos.

[3] Declaração in Los Angeles Times de 11.5.1984.

[4] Artigo no Beach Reporter de 1.11.1984.

[5] Artigo no Beach Reporter de 24.6.1984.

[6] Alegações posteriores, que circularam entre os "crentes", da existência de um túnel "documentada por uma equipa de arqueólogos profissionais" eram uma fantasia completa, em que, é triste notar, colaborou ativamente o próprio Dr. Summit (SUMMIT, Roland C. - "The dark tunnels of McMartin", in The Journal of Psychohistory, Vol. 21 (1994), p. 397-416; cf. a refutação em EARL, John - "The dark truth about the 'dark tunnels of McMartin'", in Issues in Child Abuse Accusations, Vol. 7 (1995), No. 2).

[7] Fundou em 1984 o Centro da Criança Vulnerável (CVC, Center for the Vulnerable Child) na University of Southern California, onde se formou, e até ao ano 2000 já tratara mais de 19.000 vítimas de abuso físico e sexual.

[8] Peter Ellis foi libertado em 2.2000, sete anos depois da condenação, sem ter conseguido provar a sua inocência. A luta pela sua reabilitação continua ainda hoje. No início de 4.2005, Ellis teve um ataque cardíaco grave, causado pelas preocupações da sua vida, o que parece indicar que irá morrer antes de ser reabilitado.

 

 


 

Fonte:



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Testemunho de Kris Kallman


1 Q. Yes.

 

2 A. Jason wouldn’t have been able to sign before

 

3 he was 18. My guess is that’s probably when he

 

4 turned 18, and that’s what Mr. Weitzman and Modabber

 

5 wanted.

 

6 Q. And then just for the jury’s benefit, why

 

7 would the mother sign in ‘96?

 

8 A. She was an adult. She could sign.

 

9 Q. The point I’m making is that she had a

 

10 separate settlement from her son.

 

11 A. Exactly. I mean -- yes. She got money.

 

12 Q. Yes. Okay. Now, the prosecutor asked you

 

13 some questions about provisions in the settlement

 

14 agreement, okay? And one of the issues that was

 

15 carefully negotiated by the people representing Mr.

 

16 Jackson was that he deny any wrongdoing in that

 

17 agreement, right?

 

18 A. Again, the best evidence of that would be

 

19 what’s in the agreement. I don’t remember what’s in

 

20 there.

 

21 Q. Okay. Well, let me -- the prosecutor read

 

22 you a provision, asked you about it.

 

23 Let me ask you about this: There was

 

24 language in that agreement that said, “The parties

 

25 acknowledge that Jackson has elected to settle the

 

26 claims solely in view of the potential impact any

 

27 litigation could have in the future on his

 

28 reputation, earnings and potential income, and not 4968

 

 

 

1 because of any alleged wrongful conduct on his

 

2 part,” right?

 

3 A. If you’re asking me if that’s in the

 

4 document, I’ll have to take your word for it. You

 

5 don’t need to show it to me. It sounds pretty

 

6 standard to me.

 

7 Q. The agreement further said -- excuse me, let

 

8 me rephrase that.

 

9 Both agreements, the one involving Jason and

 

10 the one involving Blanca, his mother, both had

 

11 language which said, “This agreement shall not, in

 

12 any manner, be construed as an admission by Jackson

 

13 that he has acted wrongfully with respect to

 

14 Francia, Blanca, or any other person, or at all, or

 

15 that Francia or Blanca have any rights whatsoever

 

16 against Jackson or Jackson’s releasees.” Sound

 

17 familiar to you?

 

18 A. It sounds like standard language in

 

19 virtually every release that I deal with. But, yes,

 

20 it does sound familiar.

 

21 Q. Actually, there’s a whole separate paragraph

 

22 entitled, “Denial of Claims by Mr. Jackson,”

 

23 correct?

 

24 A. Don’t know.

 

25 Q. Would it refresh your recollection if I show

 

26 you a copy?

 

27 A. It would.

 

28 MR. MESEREAU: May I approach, Your Honor? 4969

 

 

 

1 THE COURT: Yes.

 

2 THE WITNESS: It does refresh my

 

3 recollection.

 

4 Q. BY MR. MESEREAU: Okay. And do you recall

 

5 that language being in both agreements?

 

6 A. I believe so, yes, sir.

 

7 Q. Okay. In addition to the language that I

 

8 have read, there’s further language which says,

 

9 “Jackson specifically disclaims any liability to,

 

10 and denies any wrongful acts against, Francia,

 

11 Blanca or any other person and may continue to do so

 

12 publicly, to the extent reasonably necessary, to

 

13 respond to any inquiries in this regard.” Right?

 

14 A. Correct.

 

15 Q. It said further, “The parties acknowledge

 

16 that Jackson is a public figure, and that his name,

 

17 image and likeness have commercial value and are an

 

18 important element of his earning capacity.” Right?

 

19 A. That’s true.

 

20 Q. And that language was in both settlement

 

21 agreements, the one involving Blanca Francia and the

 

22 one involving Jason Francia, correct?

 

23 A. I don’t remember that. I will take your

 

24 word for it. You don’t need to refresh my

 

25 recollection. It sounds like it should be or would

 

26 be.

 

27 Q. Now, Mr. Kallman, provisions in which a

 

28 settling party denies liability are fairly standard 4970

 

 

 

1 in settlement agreements, right?

 

2 A. True.

 

3 Q. But the language that I just read to the

 

4 jury is not standard language in a settlement

 

5 agreement, is it?

 

6 A. This is not a standard case, or was not.

 

7 And no, you’re right. These were carefully drafted

 

8 by a team of lawyers, and we agreed to the terms.

 

9 Q. And the reason those terms are different is

 

10 because Mr. Jackson is an unusual individual in

 

11 terms of his need to preserve his reputation and

 

12 public image so he can earn a living, right?

 

13 MR. SNEDDON: Calls for speculation on this.

 

14 It wasn’t drafted by him. No foundation.

 

15 MR. MESEREAU: I think it was drafted by

 

16 this witness.

 

17 THE COURT: All right. I’ll sustain a

 

18 foundation.

 

19 MR. MESEREAU: Okay.

 

20 Q. When you settled these matters - and I’m

 

21 talking about matters involving Michael Jackson,

 

22 Blanca Francia, and Jason Francia - you put in

 

23 language involving denial of claims by Mr. Jackson

 

24 that was not standard language in a typical

 

25 settlement agreement, right?

 

26 MR. SNEDDON: Your Honor, I’m going to

 

27 object to the question as lack of foundation; that

 

28 he put the language in there. 4971

 

 

 

1 THE COURT: Well, that was the foundation I

 

2 was looking for.

 

3 So I’ll allow you to answer the question as

 

4 long as you understand the limitations of your

 

5 answer.

 

6 THE WITNESS: Well --

 

7 THE COURT: If you put the language in.

 

8 THE WITNESS: I didn’t draft that agreement.

 

9 THE COURT: Okay.

 

10 Q. BY MR. MESEREAU: Did lawyers from your

 

11 office draft the agreement?

 

12 A. No.

 

13 Q. Who drafted the agreement?

 

14 A. Somebody in Mr. Modabber’s office, the

 

15 Katten, Muchin, Zavis & Weitzman firm in Century

 

16 City.

 

17 Q. Did you have any input into the language in

 

18 the agreement?

 

19 A. Only to review it. And if there was

 

20 language we found objectionable, we could strike it,

 

21 I suppose.

 

22 Q. Okay.

 

23 A. But they wanted that in there, and I didn’t

 

24 find it objectionable.

 

25 Q. Okay. Now, you made a statement, I believe,

 

26 in response to the prosecutor’s questions, that if

 

27 someone from law enforcement wanted to speak to your

 

28 client, you had to first notify representatives of 4972

 

 

 

1 Mr. Jackson, true?

 

2 A. True.

 

3 Q. That -- really, that language is not in that

 

4 agreement, is it?

 

5 A. I don’t know.

 

6 Q. Then why would you say it?

 

7 A. Because that’s part -- in one of the

 

8 agreements, I have to give notice to the defense

 

9 team. And I’ve given notice once to Mr. Sanger.

 

10 And then when I got subpoenaed on Friday, I gave

 

11 notice to Mr. Modabber down in Los Angeles.

 

12 Q. But the notice you’re supposed to give to

 

13 the defense team does not involve requests by law

 

14 enforcement to speak to your client, does it?

 

15 A. I assume that anybody from law enforcement

 

16 that wants to talk to my client, there was a

 

17 requirement to notify somebody from the defense

 

18 team.

 

19 Q. Nowhere in those settlement agreements is

 

20 there language to that effect, is there?

 

21 A. I have no idea.

 

22 MR. SNEDDON: Object as immaterial;

 

23 irrelevant.

 

24 MR. MESEREAU: The prosecutor brought it up

 

25 on direct, Your Honor.

 

26 THE COURT: The objection is overruled. And

 

27 the answer came in as, “I have no idea.”

 

28 Q. BY MR. MESEREAU: It would be against public 4973

 

 

 

1 policy for a civil litigator to put language in a

 

2 settlement agreement precluding anyone from

 

3 cooperating with law enforcement, wouldn’t it?

 

4 A. In my opinion, yes.

 

5 Q. Lawyers are not allowed to have language

 

6 like that in settlement agreements, right?

 

7 A. Wrong.

 

8 Q. Pardon me?

 

9 A. No. It’s a notice requirement. It’s not a

 

10 preclusion requirement.

 

11 Q. When did you last review the notice

 

12 provisions in these agreements?

 

13 A. Probably in 1996 or 1997.

 

14 Q. Well, let me ask you this question: Did you

 

15 talk with Mr. Sneddon about what questions he was

 

16 going to ask you before you testified today?

 

17 A. No. I mean, we talked, but it was very,

 

18 very general and I don’t think the conversation was

 

19 more than five or ten minutes long.

 

20 Q. Okay. The notice provisions that you

 

21 describe talk primarily about anyone who’s suing Mr.

 

22 Jackson or if he’s contacted by the media, correct?

 

23 A. I don’t -- not the notice provisions I’m

 

24 thinking about. I think there’s a specific

 

25 provision -- it may not be in that agreement. Maybe

 

26 it’s in another agreement, but there’s a provision

 

27 that I’m supposed to contact either Johnnie Cochran

 

28 or Zia Modabber or somebody on the defense team if 4974

 

 

 

1 there was a request to speak or interview my

 

2 clients.

 

3 Q. But never in the agreement did it refer to

 

4 law enforcement, right?

 

5 A. That I don’t remember. It’s been a long

 

6 time.

 

7 Q. Okay. Okay. Now, you answered some

 

8 questions about Terry Cannon.

 

9 A. Yes, sir.

 

10 Q. When did -- excuse me, you’re currently

 

11 associated with Mr. Cannon, correct?

 

12 A. He is “of counsel” to my law firm.

 

13 Q. When did he become “of counsel” to your law

 

14 firm.

 

15 A. He’s been “of counsel” twice. Once about

 

16 ten years ago, during this period, and then again

 

17 just recently, within the last two months.

 

18 Q. So he wasn’t “of counsel” to your law firm

 

19 in October, November and December of last year,

 

20 right?

 

21 A. I don’t believe so, but I can’t be sure.

 

22 Q. During October, November and December of

 

23 last year, he was with the District Attorney’s

 

24 Office in San Diego, wasn’t he?

 

25 A. Well, I know he recently retired from the

 

26 San Diego D.A.’s Office. I don’t know precisely

 

27 when he retired, but you’re right, it’s been recent.

 

28 MR. MESEREAU: Okay. No further questions, 4975

 

 

 

1 Your Honor.

 

2 MR. SNEDDON: No questions, Your Honor.

 

3 THE COURT: All right. Thank you. You may

 

4 step down.

 

5 THE WITNESS: Thank you, Your Honor.

 
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